por EMANUEL FILARTIGA ESCALANTE RIBEIRO*
sexta-feira, 06 de fevereiro de 2026, 16h51
“Como as coisas fazem coisas na gente”, disse Maria, quando andávamos de bicicleta. Disse para ela que sim, mesmo não sabendo se se tratava de pergunta ou afirmação. Depois tentei entender de onde teria vindo a reflexão, logo desisti. Lembrei que, diante do mistério, o melhor é o silêncio.
Mas, filha,
Somos permeáveis. Há sim uma dimensão afetiva do mundo, e mal sabemos reconhecer as intrincadas e sutis ligações que tecem a nossa experiência nesta vida.
Nossa subjetividade é continuamente construída pelas interações com o mundo; este também é construído por nós. Não somos sujeitos isolados. Queira ou não queira, o mundo nos afeta, nos molda e participa da constituição do nosso eu – e nosso eu participa dele.



E muitas coisas da vida não são apenas objetos, mas nós em prática, como disse Heidegger. As coisas disparam gatilhos afetivos e cognitivos, evocam estados emocionais.
As coisas vão fazer muitas coisas em você, mas você também fará nelas. Tudo aquilo que nos toca também é tocado por nós. Levamos algo nosso para tudo que encontramos.
Ninguém nunca sai ileso dos encontros, minha filha – nem nós, nem as coisas.
A vida vai te marcar, e você deixará seu rastro nela.
Você mudará os lugares quando chegar, transformará os sentimentos quando sentir, harmonizará o sentido das coisas quando estiver nelas.
Cada gesto seu deixará um pouco de você. Cada palavra sua vai mexer no ambiente. Cada escolha modelará a vida. Nada permanecerá igual depois do encontro – nem você, nem as coisas. Não se preocupe.
